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O Impacto dos Eventos Climáticos no Meio Securitário


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11 de dezembro 2025

Autora: Maria Eduarda Kuzminskas Miyazaki de Souza

Inicialmente, é importante contextualizar o que são os eventos climáticos e quais suas principais causas, para, em seguida, compreender seus impactos sobre a sociedade, a economia, a saúde, as perdas materiais e, consequentemente, sobre o setor securitário.

Os eventos climáticos são fenômenos meteorológicos de ocorrência e intensidade anormais, capazes de gerar graves consequências ambientais e sociais. Entre os principais exemplos estão as enchentes, tempestades, vendavais e ciclones, geralmente associados ao aumento das chuvas. Por outro lado, há também os eventos decorrentes do calor excessivo, como secas prolongadas, ondas de calor e incêndios florestais. Esses fenômenos resultam de uma combinação de fatores naturais e ações humanas. Um exemplo simples e bastante comum é a queima de combustíveis fósseis (como gasolina e diesel) pelos veículos. Essa prática libera gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO₂), que retém o calor do Sol na atmosfera, impedindo que ele se dissipe para o espaço. Esse processo intensifica o efeito estufa, elevando a temperatura média do planeta e desequilibrando o clima, o que contribui para o aumento e a severidade dos eventos meteorológicos mencionados.

Um exemplo recente e concreto desse cenário foi a enchente histórica ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024, que atingiu quase todos os municípios do Estado, devastou cidades inteiras e deixou milhares de famílias desabrigadas. Outro exemplo fático que temos foi o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho em 2019.

Diante de situações como essa, observa-se que os danos materiais ocasionados pelos eventos extremos resultam em um aumento expressivo dos sinistros registrados junto às seguradoras. Com isso, cresce o volume de indenizações a serem pagas, o que impacta diretamente o cálculo das apólices e eleva o valor dos prêmios. Essa elevação decorre da dificuldade crescente de mensurar os riscos climáticos, que se tornam cada vez mais imprevisíveis e intensos, dificultando o cálculo atuarial preciso e a formação de reservas adequadas.

Surgem também novos tipos de riscos antes considerados incomuns, como enchentes em áreas urbanas, secas severas, vendavais e deslizamentos de terra. Diante desse novo cenário, o setor securitário precisa se adaptar, desenvolvendo produtos e coberturas específicas para riscos climáticos, capazes de atender de forma eficaz às necessidades dos segurados afetados por tais fenômenos.

Recentemente em um evento oferecido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), “Jornada pré-COP 30”, discutiram-se os impactos das mudanças climáticas em vida e saúde. O consultor líder da ERM Brasil, Danilo Gurdos, destacou que as mudanças climáticas deixaram de ser uma questão distante para o setor de seguros de vida e saúde, citando estudos que comprovam o impacto direto do calor extremo, da poluição e de doenças sensíveis ao clima, sobre as taxas de mortalidade e morbidade. Segundo ele “A ciência é unânime: as mudanças climáticas deixaram de ser um risco ambiental e passaram a ser determinantes de saúde”.

Para Gurdos, o setor deve adotar uma cultura de antecipação, usando dados climáticos para agir antes dos sinistros: “Agir antes também é parte da cura. A adaptação em saúde e vida reduz sinistros e salva vidas”, afirmou o consultor.

Em setembro de 2025, a revista EXAME entrevistou algumas das seguradoras que lideram iniciativas de adaptação e mitigação climática, a fim de compreender quais políticas de mercado vêm sendo adotadas para proteger os negócios e seus clientes.

A pesquisa destacou que a Zurich desenvolveu a plataforma “Zurich Resilience Solutions”, uma unidade de consultoria em gestão de riscos voltada a um cenário em constante transformação. A proposta é oferecer uma abordagem integrada que apoie as empresas na gestão de riscos e na construção de resiliência frente às mudanças climáticas. Além disso, a seguradora criou a ferramenta “Climate Spotlight”, destinada à análise de riscos climáticos com base em dados projetados até o ano de 2100. Essa solução avalia o grau de exposição das organizações a partir de quatro cenários climáticos definidos pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), permitindo uma tomada de decisão mais estratégica e científica.

Já a Allianz implementou a plataforma Climate Adaptation e Resilience Services (Adaptação Climática e Serviços de Resiliência), que converte dados climáticos em insights estratégicos para suas operações. Com ela, riscos como inundações, tempestades tropicais, incêndios florestais e ondas de calor são transformados em indicadores numéricos, possibilitando ao segurado realizar avaliações detalhadas dos riscos de seus ativos e estimar os impactos potenciais nos anos de 2030, 2050 e 2080.

Dessa forma, evidencia-se que os eventos climáticos extremos têm provocado não apenas impactos sociais e ambientais, mas também profundos reflexos econômicos no setor securitário. Cabe às seguradoras, portanto, investir em inovação, análise de dados climáticos e criação de produtos mais resilientes, que possam equilibrar a proteção ao segurado e a sustentabilidade financeira do sistema como um todo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CIDADE FUTURA. O que são eventos climáticos extremos e por que existem? Disponível em: https://cidadefutura.net.br/meioambiente/o-que-sao-eventos-climaticos-extremos-e-a-e-porque-existem/.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. O pai das cidades esponja: os 4 dados surpreendentes sobre Kongjian Yu, o arquiteto chinês que morreu no Pantanal. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2025/09/o-pai-das-cidades-esponja-os-4-dados-surpreendentes-sobre-kongjian-yu-o-arquiteto-chines-que-morreu-no-pantanal.

G1. IBGE realiza levantamento sobre os efeitos das enchentes de 2024 no RS: saiba como vai funcionar. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2025/09/15/ibge-realiza-levantamento-sobre-os-efeitos-das-enchentes-de-2024-no-rs-saiba-como-vai-funcionar.ghtml.

CASA DO SEGURO. Mudanças climáticas: quais são os desafios do setor de seguros? Disponível em: https://casadoseguro.org.br/mudancas-climaticas-quais-sao-os-desafios-do-setor-de-seguros/.

G1. Quatro anos da tragédia em Brumadinho: 270 mortes, três desaparecidos e nenhuma punição. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2023/01/25/quatro-anos-da-tragedia-em-brumadinho-270-mortes-tres-desaparecidos-e-nenhuma-punicao.ghtml.

AGÊNCIA BRASIL. Tragédia no RS já soma R$ 16,7 bilhões em indenizações de seguros. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-05/tragedia-no-rs-ja-soma-rs-167-bilhao-em-indenizacoes-de-seguros.

CNSEG. Mudanças climáticas desafiam a saúde humana e o equilíbrio do setor de seguros. Disponível em: https://www.cnseg.org.br/noticias/mudancas-climaticas-desafiam-a-saude-humana-e-o-equilibrio-do-setor-de-seguros.

ZURICH. Zurich Resilience Solutions. Disponível em: https://www.zurich.com.br/zurich-resilience-solutions.

EXAME. Clima extremo gera prejuízo de R$ 1,9 trilhão no mundo: qual o papel das seguradoras na adaptação? Disponível em: https://exame.com/esg/clima-extremo-gera-prejuizo-de-r-19-trilhao-no-mundo-qual-o-papel-das-seguradoras-na-adaptacao/.

ZURICH. Climate Spotlight. Disponível em: https://www.zurich.com.br/blog/articles/2025/07/climate-spotlight.

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